ELINASE
VOL. 1N 7 2021
NA LIRA DAN
a EXDEDICNC LAUDELINAS
VOLUME 1. NÚMERO 7.2021 ISSN 2675-6803 SELO EDITORIAL MIRADA RECIFE - PERNAMBUCO
EDITORA CHEFE CAPA Taciana Oliveira Fani Feldman por Águeda Amaral.
CONSELHO EDITORIAL EO POCDAL ISO Argentina Castro Fani Feldman por Águeda Amaral Liliana Ripardo (p.14) Taciana Oliveira o
Agueda Amaral (p. 46-47) BESIGNER EDITORIAL Picnic on the Esplanade, Boston Rebeca Gadelha (1973) por Nan Goldin (p. 14-15)
Untitled (from Rapture) (1999) por Shirin Neshat (p. 34-35)
Marcados (1981-1983) por Claudia Andujar (p. 49)
“ “Eu não tereia minha vida reduzida. Eu não vou me curvar ao capricho ou à ignorância de outra pessoa.”
Bell Hooks (* 25.09.1952 + 15.12.2021)
A JIN E TR
APRESENTAÇÃO
Taciana Oliveira
Laudelinas se solidifica como um espaço de resistência, uma revista que abraça a causa feminista em sua diversidade de pautas. Nela ratificamos nosso compromisso com a democracia, o meio ambiente e os movimentos sociais.
Convidamos vocês para a leitura da nossa última edição do ano: uma publicação conduzida por vozes atuantes na sua profusão de gêneros e formatos artísticos. Em um tempo pontuado por ataques às instituições públicas e ao bom senso, combater o fascismo é, sobretudo, respeitar e preservar nossas identidades.
A artista mexicana, Frida Kahlo, destacava: A revolução é a harmonia da forma e da cor e tudo está e.se move sob uma única lei: a vida. Ninguém se aparta de ninguém. Ninguém luta por si mesmo. Tudo é um, um é tudo.
Somos todas Laudelinas.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
MULHERES-ÁRVORE
DENTRO DE CASA Adriane Garcia
ENTRE SOBRAS E MIGALHAS:
UMA IDENTIDADE DE FOME
TRAVESTI Uma Reis Sorrequia
QUEM TEM MEDO DE UMA ESCRITORA LÉSBICA Dia Nobre
[DUM LUGAR ÍNTIMO DO ESPANTO]
POÇÃO INSUSTENTÁVEL calí boreaz
Bruna Sonast SUGESTÃO DE LEITURA:
AS VOZES DA LIBERTAÇÃO Patrícia Gonçalves Tenório
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12 +3
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NIHIL AGULHA SER- P-ENTE Barbara Assim
OBSESSÃO Alê Motta
É MENINA Carla Guerson
MEA CULPA Milena Martins Moura
TRECHO DO LIVRO “O DIÁLOGO” Luizza Milcezanowski
QUASE TARDE Germana Accioly
PARTICIPARAM DESTA EDIÇÃO
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MULNERES-ÁRVORES'
Adriane Garcia
Queremos estar tão verdes Que os macacos pulem em nós
De galho em galho
Que as formigas subam em nós Arranquem nossas folhas
E levem para suas colônias
Nós desfolhadas Aguardaremos a próxima chuva
E com alegria daremos brotos
Ao mundo dos pássaros Ao mundo dos répteis e
Dois cogumelos nascerão em nossas
[bocas
Seremos verdes e mulheres
Até mesmo os homens
Tendo espalhado tanto cinza
Seremos verdes e úmidas
Feito os sapos que visitarão os nossos [dedos
Feito as cobras-cipós enroladas em
[nossos troncos
Não teremos qualquer aflição Quando formos verdes
E nos nascerem frutos cor-de-rosa.
* “Mulher-árvore” e “dentro de casa” são dois poemas do livro Estive no fim do mundo e lem-
brei de você (Editora Peirópoles, 2021)
DENTRO DE CASA
Quando o pantanal queimou Nas fotografias que chegavam Quando o pantanal foi queimado Eu omitia aquelas Tive que mostrar para minha filha Que mais nos feriam
Cada onça recuperada
Eu omitia aquelas que Tentei esconder, mas a fumaça Nos envergonhavam Desceu do Mato Grosso Como raça.
Até que deixou cinza
Belo Horizonte
a Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Hori- zonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 7 2018), Arraial do Curral del Rei — a desmemória dos bois P (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, (ed. Caos & Letras, 2020) e Estive no Fim do Mundo e lembrei de você, (ed. Peirópolis, 2021).
EN RE GOBRÃO E MIGALHAS:
UMAS LDENTIDADEÇDE ron
Uma Deis Storrequia
Toda noite, enquanto prepara o jantar, Dona Maria escuta sua filha dizer: - Estou morta de fome!
A menina vem chegando da rua, batendo o portão, e já vai logo gritando aos qua- tro cantos que está faminta. Ainda que sua mãe lhe prepare um banquete parece que nunca lhe é suficiente. O prato tem de tudo um pouco: arroz, feijão, carne, legumes, salada e farofa. Comida caseira de gente humilde. Volta e meia mainha lhe faz um agrado e prepara uma sobremesa ou suco natural como ela gosta. Já ajeita a marmita dela também para o dia seguinte. Elas assistem qualquer coisa na T'V, proseiam sobre seus dias e riem juntas - é jeito delas de amortecer o cansaço do dia a dia. Antes de irem deitar Dona Maria e sua filha preparam juntas um chá e beliscam alguns biscoi- tos.
De manhã o saco sem fundo que é sua filha acorda com o estômago roncando e dizendo:
- Mãe! Estou com fome!
Dona Maria vai montando a mesa do café com o que tem, com o que vai encon- trando. A água do café está fervendo. Ela aproveita para ir arrumando a bolsa, pois tem que ir trabalhar. Coa o café rapidinho e vai saindo:
- Filha, o café tá mesa. Tchau. Fica com deus viu.
Amélia está na cama lutando contra o sono quando ouve sua mãe se despedir.
Deveria ter despertado meia hora antes, mas foi prorrogando o alarme em 10 e 10 mi- nutos. Levanta de supetão, pois conhece a menina preguiçosa que é. Se não pular da cama, provavelmente, irá se atrasar como sempre. Enrolada que só ela.
Após se arrumar, meio que sem tempo, Amélia senta para tomar o café que sua mãe deixou preparado. Reclamona, não bebe o café já morno. Come um pão com manteiga, um pedaço de bolo e busca algo para beber na geladeira. Tem um restinho de suco da janta de ontem. Pega uma maça para ir comendo no caminho, confere a bolsa, vê se tá tudo certo e assim começa seu dia.
Amélia é uma travesti.
TRAVESTI
Uma Deis Sorrequia
RR E obra sem término O ser travesti flui
Estou travesti
E Quando tu vê Não nasci travesti
Já não é a mesma
A sociedade me gritou: travesti!
: Não existe UMA travesti Me identifiquei
Pois cada travesti é UMA
; Somos uma legião Estou me fabricando
Travesti é processo
Uma Reis Sorrequia nasceu e se criou em Sorocaba, in- terior de São Paulo. Morou em Curitiba (PR), Córdoba (ARG) e Recife (PE), e, atualmente, mora em São Pau- lo capital. É autora do poema “Eu era uma menina e não sabia”, publicado pela Vivara Editora Nacional, na obra Antologia Poética, Sarau Brasil 2019. Fúria Travesti é o brado de Lohana Berkins que convoca todas as travestis à luta. Uma está arte-educadora no Museu da Língua Por-
RE, | tuguesa. Mestranda em Comunicação e Práticas de Con- sumo COM ei SP). Cursando o aperfeiçoamento em Infâncias e Direitos Humanos (CLACSO). Licenciada em Geografia (UFSCar-So). Travesti artivista. É viciada em café, apaixonada por padarias, ama vinho e é chocólatra. E-mail para con- tato: uma.sorrequia(Dgmail.com. Instagram: (Dfuriatravesty.
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QUEM TEM MEDO DE' UMA ESCRITORA LÉSBICA?
Dia Nobre
Foi a partir da literatura que o femi- nismo se tornou uma questão importan- te para mim. Apesar de ter sido leitora de Clarice Lispector na adolescência e meu livro preferido ter sido escrito por uma mulher (A casa dos espíritos, Isabel Allende), quando eu pensava sobre litera- tura vinham à minha cabeça, majoritaria- mente nomes de homens/escritores.
O problema se agravava quando eu considerava a produção de mulheres ra- cializadas e mulheres LBTQIAP+, ou seja, mulheres que estão fora da bolha heteronormativa-branca-cisgênera-rica- -cristã: “A lésbica de cor não é somente invisível — ela não existe”, diz Gloria Al- zandua, escritora chicana (2000, 229).
Quando fazemos um recorte mais específico, como o da sexualidade, por exemplo, o apagamento se adensa. Re- gina Dalcastagné em uma pesquisa de fôlego apresentada no livro ”Literatura Contemporânea Brasileira: um território contestado” (2012), demonstrou, em uma
análise que envolveu 258 obras publica- das ao longo de 14 anos (1990-2004), que 72,7% da autoria era masculina. Quando se tratava de representatividade LGBT, apenas 3,9% eram ou apresentavam per- sonagens homossexuais, sendo que, entre estes, 79,2% eram de homens gays.
Quando eu proponho um recorte sobre esse grupo, de mulheres lésbicas ou sáfi- cas, eu estou apontando a falta de repre- sentatividade dentro da literatura. Esses são os modos como a dominação mascu- lina se manifesta e muitas pessoas sequer questioham essas estratégias de controle. As mulheres foram historicamente pri- vadas de uma existência política e esse apagamento se agrava quando tratamos de grupos que escapam às normativida- des impostas: “As lésbicas tem sido his- toricamente privadas de uma existência política, por sua “inclusão” como versão feminina da homossexualidade masculi- na, porque ambas são estigmatizadas, é apagar mais uma vez a realidade das mu-
lheres” (Rich, 2019, 66).
Até quando existe certa representa- tividade homossexual, esta prioriza os grupos masculinos, daí a importância de diferenciar a sexualidade feminina da masculina, como reforça Adrienne Rich. Por isso, a necessidade de ainda marcar- mos essa produção específica: “há uma lacuna no campo literário quanto à auto- ria e representação da homossexualidade de mulheres na literatura, lacuna promo- vida por esquecimentos e apagamento” (Polesso, 2018, 2).
Ao considerarmos a sexualidade das autoras, retiramos essas mulheres do lu- gar de não-existência e, principalmente, questionamos essa visão mística da arte (ainda seguindo o pensamento de Rich) que faz com que ela seja considerada como dom e vocação e a destitui de seu caráter político: “O texto do poema não deve ser lido como algo separado da vida cotidiana [,,,] A poesia está em continui- dade histórica e, não, acima da história”, nos diz Rich (2019, 68)
Na minha adolescência, vivida nos anos 2000, eu não tive referências de au- toras lésbicas uma vez que as obras de autoras assumidas não eram difundidas. O meu primeiro contato com uma autora que tratava en passant sobre relaciona- mentos homoafetivos foi com a escritora Ana Cristina César (1952-1983) que era bissexual. Acredito que a dificuldade de encontrar essa experiência na literatura,
bem como nas artes de modo geral, di- ficultou o meu próprio movimento de autodescoberta. A falta de referências na minha adolescência, fez com que eu crescesse apenas com modelos hetero- normativos de família e relacionamentos que conflitavam com meu modo de ver o mundo. 7
Se pensamos o que define a literatura lésbica, creio que posso dizer que é uma questão de autoria, ou seja, é uma litera- tura produzida por autoras lésbicas que criam recursos de identificação ou repre- sentatividade para outras mulheres lésbi- cas.
Não se trata mais somente de escrever sobre o amor entre as mulheres, saídas de armários e descoberta da sexualidade, temas comuns nas obras de autoras pio- neiras como Cassandra Rios (1932-2002), Vange Leonel (1963-2014) e Karina Dias (1979) que foram extremamente necessá- rias para a pavimentação dessa literatura que hoje busca naturalizar a existência lésbica.
Hoje, no mercado contemporâneo voltado para as autoras LBTQUIAP+ se destacam autoras como Natalia Borges Polesso (1981) cujas obras dão protago- nismo às personagens lésbicas, mas sem fazer disso o cerne das tramas. É tam- bém o caso de Desmemória, romance da escritora Thalita Coelho (1991), semifina- lista do Prêmio Jabuti em 2021 que narra a história de Vic, uma mulher capaz de
roubar as memórias daqueles que o cer- cam, prejudicando a saúde destes, inclusi- ve da sua companheira, Ana Cristina que no início da narrativa está em coma.
No Brasil, o Clube Lesbos criado em 2017 por Sol Guiné e Lidia Bizio na cida- de de São Paulo surge como um espaço importante para a leitura de obras de au- toras lésbicas e hoje possui nove clubes em várias capitais do Brasil. A existência do clube que já teve como mediadoras, autoras como Cidinha da Silva e Cecília Floresta, demonstra como é importante haver espaços seguros para mulheres que querem ler e estudar obras com as quais se identificam.
Eu fui mediadora do Clube Lesbos na cidade de Petrolina, Pernambuco em 2019 e uma das coisas possíveis de per- ceber nos encontros era o sentimento de acolhimento e representatividade que as participantes experimentavam. O Clube acabava funcionando como um espaço de compartilhamento de experiências que transcendiam a questão da descoberta. Ali eram problematizadas a lesbofobia e o preconceito, mas também questões como a maternidade, corpo, desejos, afetos, etc..
A literatura é política.
Ao ler mulheres LBTQUIAP+, eu marco o meu lugar de existência. Ao prio- rizar a escrita dessas mulheres eu estou dizendo ao mundo: o seu projeto de nos apagar não venceu.
Estamos aqui. Existimos. Resistimos. Aceitem.
Referências
ALZANDUA, Gloria. Falando em lín- guas: uma carta para as mulheres escri- toras do terceiro mundo. Ver. Estudos Fe- ministas. ANO 8, 1º SEMESTRE 2000. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/ index.php/ref/article/view/9880
DALCASTAGNÉ, Regina. Literatura Contemporânea Brasileira: um território contestado. São Paulo: Editora Horizonte, 2012.
POLESSO, Natalia Borges. Geografias lésbicas: literatura e gênero. CRIAÇÃO & CRÍTICA, n. 20, 2018. Disponível em: https:/www.revistas.usp.br/criacaoecriti- ca/article/view/138653
Entrevista com Natalia Borges Poles- so no Universa. Disponível em: https:// www.uol.com.br/universa/noticias/reda- cao/2021/05/26/autora-de-7-livros-com- -personagens-lesbicas-rejeita-ideia-de-te- matica-lgbt.htm?cmpid=copiaecola
RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Rio de Janeiro: A Bolha Edições, 2019.
Dia Nobre é escritora e Ph.D em História. Natural do Cariri cearense, atualmente trabalha em Petrolina, Per- nambuco, como professora universitária desenvolvendo projetos ligados à literatura, história, lesbianidades e fe- minismo. Publicou dois livros de não-ficção, O teatro de Deus (Ed.UFC, 2011) e o premiado Incêndios da Alma, (Multifoco, 2016), tendo recebido três prêmios por este último, incluindo o Prêmio Capes de Teses (2015). Seu | primeiro livro de poemas, Todos os meus humores, foi
publicado em 2020 pela Editora Penalux. Participa ainda das Antologias Cole- tânea VISÍVEIS — I Anuário Filipa Edições e Antes que eu me esqueça — 50 au- toras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021). Em 2021, lançou o li- vro de ficção No útero não existe gravidade, finalista do Prêmio Mix Literário.
DEM [UGARVINEIMO DO ESPANTO | *
cali boreaz
no Vazio pachorrento que te fura por ali passa a centelha e enquanto passa
dilata-o
* “[Dum lugar íntimo)” e “Poção Insustentável” são dois poemas do livro do livro tesserato (Caos & Letras, Brasil, 2020)
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POÇÃO INSUSTENTÁVEL *
quase que passo por uma poça uma pequena poça de água
num qualquer meio de rua da cidade
tantos de nós contemplam rios o mar a chuva quantos contemplaram um dia uma poça
escura suja, € rasa
mesmo assim espelha meu rosto, a poça
sinto generosidade nesse pequeno gesto
e então demoro-me em sua toda pequenez
em seu silêncio esquecido aos pés da cidade
em seu contorno que se sabe improvisado
vejo então que é a poça que me observa
rios mar chuva passam
ex-correm a cada instante que passa — não a poça a poça demora-se conserva-se é vejo que chega a olhar-me com altivez
uma profundez reversa
vejo que me analisa
águas que fluem não fazem esse tipo de coisa
não estão nem aí
quase desvio o olhar, mas mantenho
quero ver até onde vai a rasa poça
que me atrasa assim
a bicicleta passa e liberta a poça seja como for, que fica do meu tamanho estou aqui e avanço não posso
sacudindo a poça de mim ou — é a poça que me sacode de si mais adiar
e o mundo é que recuou isso
5. * calí boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direi- | N to, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco. =" Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua e literatura romenas e tradução literária. No virar de 2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e ao ofício do teatro. Traduziu do romeno os romances O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal, 2010], de Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, Brasil, 2012], de Mihai Zamfir. Tem dois livros de poesia: outono azul a sul [ed. Urutau, Portugal & Brasil, 2018/19], um relato poético do exílio e da clandes- tinidade, com posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira; e tesserato [ed. Caos & Letras, Brasil, 2020], uma reunião de tentativas poéticas acerca da suspensão e do deslocamento na imobilidade. Seu conto islandeses integra a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle [2019]. Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, por- tuguesas, galegas e mexicanas, bem como em exposições de Portugal e da Índia. Criou e apresentou em 2020, para o Midrash Centro Cultural, o programa online de poesia atual ainda somos muito novos para escrever estes poemas. Interpreta seus poemas em espetáculos poético-musicais — jam poetry sessions — e em for- ma de videopoemas. [casas virtuais: caliboreaz.com | instagram.com/caliboreaz]
Ê
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Eruna tonast
Ela olha nos olhos. Aqueles olhos de quem olha de dentro de uma canoa sobre águas paradas, como se fossem o próprio tempo. Naufrágio. Os sentidos se perdem, mas a gente nunca sabe quando. É assim, cai em si, e já não estão mais lá. A mulher pensa que a cidade já se esgotou, é preciso partir em novas embarcações. E ainda assim, e por isso mesmo, fica, na areia da praia, olhando os olhos que olham de dentro de uma canoa sobre águas paradas, nessa direção absurda do não saber por onde começar. Aqui, as águas são contrárias. E é que dizem que se encontrar é a única forma de amor válida, mas ela mesma só se perde, entre os tantos (des)encontros de estar. A mulher quer uma bússola, uma rota, uma solução, que jogue no mar cada uma de suas pala- vras.
E o mar engole,
para que os olhos já não vejam nada, na esperança e no horror, de quem só sabe olhar pro fundo.
Bruna Sonast é escritora independente. Vive na e pela poe- sia dos dias, seguindo os (des)caminhos do sul, do aqui-a- gora. Publicou vestígios em 2020, com nova impressão em 2021. Organizou e participou com poema em baRRósas: memória e poesia (Selo Mirada, 2021).Tem graduação em Letras e mestrado em Linguística Aplicada, pela Univer- sidade Estadual do Ceará. Integra a coletiva de mulheres “baRRósas”.
SUGESTÃO DE LEITURA
END VR Z dese LIBERTAÇADE
Patricia Goncalves Tenório
Em março de 2020, inaugurei o curso on-line e gratuito Estudos em Escrita Criativa com o mergulho em escritores ingleses, em especial, O conto da aiaí, de Margaret Atwood.
Narrado em uma sociedade distópi- ca, mas que nos traz — de maneira apavo- rante — muitos dos elementos do mundo atual, Atwood nos apresenta a República de Gilead, depois do golpe que matou o presidente dos Estados Unidos e a maioria do Congresso americano. O grupo ditador
e terrorista é católico e tem como tônica afastar as mulheres do mercado de traba- lho e deixá-las apenas para serem mães e esposas dedicadas. Por causa de vazamen- tos químicos e radioativos, a maioria das mulheres tornou-se estéril, e aquelas em condições de procriar foram transforma- das em aias, pertencentes aos comandantes do grupo terrorista, perdendo sua identi- dade (até mesmo o nome, por exemplo, a narradora deixa de se chamar June Osbor- ne para ser Offred, ou seja, De Frederic
1- Sobre Artemísias: vozes de libertação. Claudete Bispo, Iaranda Barbosa, Suelany Ribeiro... [et al.). Organização: Amira Rose Medeiros, Denise Sintani, laranda Barbosa... [et al.]. Apresentação: Iaranda Barbosa. Prefácio: Geórgia Alves. Ilustrações: Amira Rose Medeiros, Liliane Correa, Maria Cardoso, MarinaPresbítero. Design/Diagramação: RebecaGadelha. 1ºed. Recife: SeloMirada,2021.
2-ATWOOD,MargaretEleanor. Ocontodaaia. Tradução: AnaDeiró.RiodeJaneiro: Rocco, (1985in)2017.
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Waterford, o comandante proprietário) e tendo como único objetivo de vida gerar filhos para as famílias às quais pertencem.
Assistindo ao Fronteiras do Pensamen- to de 27 de outubro de 2021”, maravilhei- -me com a lucidez dessa canadense de 81 anos, com mais de sessenta livros publica- dos es(ainda) atualmente professora de Es- crita Criativa. Ela afirma, de maneira bem humorada, que é muito tarde para mudar de profissão. Mas o que mais nos interessa para esta breve resenha é a proximidade do pensamento de Atwood com o dos textos das quinze escritoras da coletânea de contos e poemas Artemísias: vozes de libertação.
Organizado, entre outras, por Iaran- da Barbosa, Artemísias nos apresenta ca- sos dolorosos de abuso sexual, de todas as formas possíveis e (in)imaginárias. A mulher como temerária, afirma Atwood na palestra, e por isso abafada, e violentada, e subjugada à opressão patriarcal da nossa sociedade (ainda) hoje em dia. A aia de Margaret, despossuída de qualquer direito, não está muito longe de vários casos cita-
MIRADA
dos no livro organizado (e um dos contos escrito) por Iaranda. E o pior: nós mulheres seguindo o regime patriarcal e condenan- do a nós próprias mulheres, por causa de roupas ousadas, de vida sexual libertária, de se dedicar a uma profissão normalmen- te exercida por homens. Mas a escrita in- depende de gêneros para nos salvar. Em “Teus continentes e os meus”, resenha de setembro de 2021 desta coluna “Dois livros por mês”, ao analisar Os continentes de dentro, de María Elena Morán, cito o caso
3- O Fronteiras do Pensamento é um projeto promovido por várias instituições, entre elas, a PU- CRS. No segundo semestre de 2021, trouxe ao público grandes nomes do pensamento mundial, entre eles Jared Diamond, Yuval Noah Harari e Margaret Atwood. A palestra com Atwood foi me- diada pela escritora e atriz Bruna Lombardi. Maiores informações: https://www.fronteiras.com/
4- Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021.
na vida real de uma pessoa amada que, adoecida psiquicamente, teve de ser inter- nada em uma clínica. Isso tudo narrei nos originais do livro de apenas poucas leitoras (três para ser exata), no intuito de preser- var a pessoa amada, Caminhos manchados de não. O que não mencionei na resenha do livro de Morán é que a minha pessoa amada também sofreu abuso, tendo como consequência o adoecimento psíquico.
Quantas mulheres que conhecemos, inclusive nós mesmas, precisam chegar ao fundo do poço, inclusive tirando a pró- pria vida, para que façamos algo genero- so umas para as outras? Para nos prote- germos? Para nos dar carinho, e força, e qualidade literária com técnicas refina- díssimas (transição de vozes narrativas, transformação em linguagem das carac- terísticas de personagens, fluidez entre os gêneros em um mesmo texto) que en- contrei no livro de tantas mãos dadas que se chama Artemísias e ecoar, nos quatro cantos do planeta, a nossa voz de mulher?
Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte livros publicados, sendo um deles, A baronesa (2020), em formato vídeo- podcast. Recebeu prêmios no Brasil e no exterior por as joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falas- se (2012), A menina do olho verde (2016) e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e douto- ra em Escrita Criativa (PUCRS), ministra desde 2016, cursos on-line e presenciais do grupo de Estudos em Escrita Criativa.
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ninIiL
ELarbara Assim”
Almas absortas em copos
Tragando goles de desterro (pausa aprecia gotas translúcidas)
Profusas letras Versos me comem As cerejas em bolos
Jorro todas no vaso florido que resta à tua mesa queimada (Cigarro e sol)
Travessões que passeiam solitários:
Uns dizem ser loucura
vociferando aos olhos
“Derramem!”
(pausa deglute mais gotas)
Zappa ao fundo
1 Palavra do latim que significa nada, coisa nenhuma.
2 Barbara Assim é o “pseudônimo” de Barbara Caroline Gonçalves, poeta alagoana pelo
amor e pela dor.
Desconcertando particulares entes Raízes à mostra
páginas preteridas
E cada centímetro
De celulose exposto
(nada será de proveito, a não ser ao vaso)
Movimentos circulares Inerentes ao copo Despedaçando o leito
Serpentes quebrando ossos
(Nada demais)
Dei de parar o assombro
Dei de correr às meias luas, meio vestida Mas nua de colares
Coroas estúpidas
Se sobrepõem aos goles
Cospes no chão
aquilo que abandonas agora
Deixando-o lustre de memórias opacas Orifícios preenchidos com languidez Chovendo risos
Solo fértil para ser só isso
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(em dias secos)
Dois demônios Daemon” travesso Avesso
De verso (diverso)
Ela virá rir na tua cara!
“Lay, lady, lay!” — você berra em desespero Osso, açafrão e giro solvendo
Sustenido dos deuses em uníssono
Nada transcende o cromatismo de nosso escuro Rupias” não pagam as letras tatuadas
Alma
(esse antiquário em suspensão)
Cabra cega em Nova Déli Malha ferroviária sem tradução possível Impondo altares ao Taj Mahal
Que venerem o suficiente
3 Do grego, significa demônio, gênio, espírito. 4 Música de Bob Dylan. 5 Moeda oficial da Índia.
o torpor impresso em teus olhos Todavia, há um Gandhi cansado em minhas ruas Embrulhando cascalhos ao peito
E derretendo a aurora
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AGULHAS
Desalinhando botões de cor Fazendo abrir
Asas
bo
Ca
se ta
O
Estrondo
Visceral
O
São vagas Entes Arrancar de dentes
As escondidas
Um pedido de obediência à mente “Cachorro bobo, bonito”
Ausência de respostas
MriM [EN IE
Eu sou o parêntese
Guardo o que se subentende O que o beiço cala
Mas a língua sente
A bala que perfura deixando o quente Querendo a beleza
Que, prostrada, doente Estendida na mesa
Varal de serpente
par-Ente-5I
Barbara Caroline (Barbara Assim) é uma poeta de Maceió.
EE Caos (grupo universitário que tem promovido a arte e suas pos- sibilidades desde o início da pandemia, em 2020). Está lançando em breve seu primeiro livro, Palavras pesadas carregadas por E borboletas, onde expõe seu espírito notívago e visceral com uma sutileza incomum. O livro deve ser lançado no primeiro semes-
E, tre de 2021 pela Edições Parresia e atualmente a escritora está no processo criativo de seu próximo livro de poesias e em projetos de escrita colaborati- va. À poeta escreve com um teor de “caos e fogo” singular, como diria o também poeta e seu amigo pessoal Leo Barth, responsável pelo posfácio do referido livro da autora. Assim sendo, desfrutamos em sua escrita o que a sensibilidade nos permite vivenciar ao mesmo tempo sem perder a inquietude pungente de eu lírico igualmente pandêmico.
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OBSESBAÃO
Alê Motta
Eu atravessava a rua na faixa, o sinal fechado para os carros e ainda assim fui atropelada. Por pouco não estourei minha cabeça no meio-fio. O motorista do carro grandão que me atropelou não me socorreu e não foi encontrado.
Mas eu sei o que aconteceu. O motorista brigou com a mulher dentro do carro e quando ela falou Quero me separar, ele berrou Vou atropelar a menina aí na frente e a culpa é sua, você nunca vai se afastar de mim.
Faz um mês que ele me atropelou. A mulher dele foi à delegacia semana passada e contou tudo. O cara é obcecado por ela. Quando saiu da delegacia ela foi atropelada e morreu.
Fico pensando se o idiota já encontrou uma nova obsessão.
Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020). É colunista da Revista Vício Velho.
É MENINA*
Carla Guerson
É menina — sentenciou o médico. Dentro do grito que sua avó deu, a sur- presa se misturava com a preocupação. Menina como eu, pensei, sem saber se era alegria ou tristeza o que escorria dos meus olhos.
Hoje eu acho que era medo, filha.
A gente quando engravida não pensa em muita coisa. Você quer um bebê e é bem fácil fazer um. Quando você crescer eu explico tudo, prometo. Aí vem o re- sultado positivo e a gente quase que quer pregar na testa para mostrar para todo mundo que tem bebê ali dentro daque- la barriga molinha de quem comeu muito pão de manhã.
Logo a barriga cresce e todo mundo quer passar a mão, quer saber, quer per- guntar. É para quando? É menina? Já tem nome? É menino? Vai ser parto normal? Qual seu médico? Você já agendou o hos- pital?
Acho que foi pelo excesso de pergun- ta que eu acabei descobrindo que eu não sabia de nada. Que ter um bebê era muito mais difícil do que parecia, não era só fi- car parada esperando amadurecer, tinha um monte de coisa para decidir.
Tinha que saber o sexo e tinha que escolher o nome, o tema do quarto, a cor da parede. Tinha que encomendar o kit do berço — e eu achando que ter um ber- ço já era grande coisa. Eu também devia procurar uma doula, fazer ginástica de grávida, aula de parto. Escolher o hos- pital e escrever um plano. Depois pensar nos exames, não pode ganhar muito peso e nem tomar coca cola. Cerveja, então, nem pensar — mas isso eu já sabia, em- bora tenha ouvido dizer que se for só um copinho não faz mal.
Ah sim, e eu tinha que dormir muito. Isso todo mundo me falava. Porque de- pois, já viu, nunca mais vai dormir. Até que isso era verdade, que até hoje eu não durmo direito. Se bem que eu acho que
* Texto do livro O som do tapa, Editora Patuá (2021)
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nunca fui muito boa de dormir. Nem de acordar.
Mas foi no dia que o médico me con- tou o seu sexo que o meu mundo começou a desmontar. Porque eu não sabia o que eu podia providenciar para te preparar para ser mulher aqui junto comigo. Eu não sa- bia como te contar das coisas que passei e como te ensinar o que eu nunca apren- di. E por isso eu chorei, e ainda choro.
A primeira coisa que eu escolhi foi o seu nome. Vai se chamar Helena, como a minha avó. E sem querer te marquei com tudo o que você vai carregar para o resto da vida. Minha herança, o que eu tenho para deixar para você, é só isso mesmo, esse ser mulher. Mulher como eu, como a sua avó e sua bisavó.
Sua bisa Helena corria pela casa o dia inteiro, atendendo uns e outros, criou seis filhos, mais um bocado de neto e nunca — nunca — tinha um sorri- so no rosto. Vó Lena dos braços fortes, carregava dois meninos no colo ao mes- mo tempo. Matava galinha, puxava bala de coco com uma mão só. Não gritava com a gente, porque não precisava. Só de olhar a gente obedecia na mesma hora.
O sangue que te corre as veias tem de Vó Lena, que virou sua bisa quando játinha morrido. Tem também da minha mãe, sua avó Célia, que mora com a gente até hoje eé o seu xodó. Não sei se ela mora com
a gente ou se a gente é que mora com ela.
Mãe Célia que saiu cedo de casa para estudar e virou professora. Criou três fi- lhos sozinha, botou para fora o marido alcoólatra, que ficou morando na casa da vizinha, amiga dela. Sua avó Cé- lia, que cuida do seu avô até hoje, de- pois que a vizinha cansou dele e sumiu, largando ele e os cachorros para trás.
Seu sangue tem de mim também, pe- quena, que estou aqui tentando descobrir como fazer para ser o que nunca achei que teria que ser: exemplo para alguém. Me dói saber que você carrega em si tanto de uma mãe dorminhoca que não é forte como sua bisa nem determinada como sua avó. Uma mãe que não soube dizer não para o seu pai e acabou engravidando nova de- mais, sem nem terminar a faculdade. Que esqueceu de dar comida aos peixinhos e deixou eles morrerem. Uma mãe que não preparou nada e que nem sabe de tudo o que devia ter sido para poder ser mãe.
O que me resta é te desejar sorte. Que você tenha em você a bisa que não conhe- ceu e saiba que ela era brava, mas cantava de noite para os filhos dormirem. Que se lembre da avó, que não parava em casa, mas que depois nos abriu sua casa quan- do a gente mais precisou. E de sua mãe, que não sabe ser mãe, mas que teve a co- ragem de te assumir e de te querer, quan- do seu pai decidiu que não dava para ele.
E menina, disse o médico. E meu chão se abriu.
É menina e tem tanto para aprender. Tanto para escolher. Tanto para receber.
E menina. Como eu.
Carla Guerson é escritora, feminista, ge- miniana e a favor dos incômodos. Escre- ve contos, crônicas e poemas e tem textos publicados em diversas revistas literárias, coletâneas e antologias. O conto É me- nina integra a coletânea O som do tapa (Editora Patuá, 2021), seu primeiro livro.
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MEA CULPA
Milena Martins Moura
cai pro lado de pernas abertas como bailarina e baba sílabas molhadas. mea culpa. mea culpa. a cabeça encosta no chão com uma força que sangra. mea culpa. o piso quente denuncia o calor do sangue e do rio de janeiro. 45 graus, uma temperatura ímpar. o frita-se um ovo no capô. mea culpa.
fui eu que cortei aquela árvore
* Poema que integra o terceiro livro da poeta carioca Milena Martins Moura, A Orquestra dos Inocentes Condenados (Editora Primata, 2021). “Orquestra” foi escrito durante a pande- mia da Covid-19 e enfrenta os efeitos nocivos da solidão e do medo provocados pelo isola- mento social, trazendo pensamentos sobre a finitude e a fragilidade da vida, memórias nos- tálgicas fundantes e uma discussão necessária sobre a neurodiversidade entre mulheres.
e a carne dos meus braços no dente.
é meu o ódio quente
a cada nota assoviada
e talher balbuciando
percussão na louça.
é porque eu vim errada
a um mundo quente
e o meu rosto vermelho chama. mea culpa.
cai pro lado
e executa
a última pena.
se fere de morte
durante um recitativo chato.
a plateia só veio porque era de graça. para eles todo infeliz é vilão:
e. ai de mim,
que vim confessar.
Milena Martins Moura nasceu no subúr- bio do Rio de Janeiro em 1986. É poeta, editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicou também os livros Promessa Vazia (2011, contos), Os Oráculos dos meus Óculos (2014, poe- sia) e Banquete dos Séculos (edição da autora, 2021, poesia). É editora da revista feminista cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Lite- rária e de poetas do portal Fazia Poesia. Tem poemas e contos em portais e revis- tas como Subversa, Torquato, Mallarmar- gens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Ara- ra, Kuruma'tá, Aboio, Arribação, Totem Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru).
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TRECHO DO “LIVRO “O DLALOGO”*
luiZza MilcZzanowski
No início, L.C. não tinha um nome. Seu nome era apenas Homem. Ele era o Homem, a figura do homem. Ela o amou como se ama um homem sem identida- de. Quando conheceu Leonardo, não foi no sexo que o amor se constituiu. Amou Leonardo no primeiro momento em que olhou para ele - como poderia ter ama- do qualquer um. Olhou para Leonardo e o criou. Foi ela que o criou, que criou a relação dos dois e um amor que ainda não existia. Foi no primeiro olhar de Leonar- do que soube. Foi ela que criou L.C. Foi criação sua. Ele não teria tido importân- cia alguma se ela não tivesse precisado criar sua importância. Em um primeiro momento, amou Leonardo como se ama uma borboleta. Queria amá-lo como se ama uma folha em uma árvore. Era um amor contemplativo - ela queria olhar L.C., apenas olhar para ele, vê-lo à distân- cia, talvez tocá-lo uma única vez. Era um amor de tons róseos que corria no vento.
* O Diálogo, editora Penalux, 2021.
Um amor de olhar. Um amor irreal. Ela queria amar, desde o princípio, algo que não fazia parte da realidade. Queria amar uma fantasia.
O grande problema é que Leonardo C. se tornou real. Sua realidade trouxe problemas que ela não soube controlar. Não estava preparada para a realidade de L.C., para sua existência como pessoa. Leonardo sempre foi algo que deveria ter feito parte apenas do Leonardo espectro, do Leonardo-diálogo.
É mais fácil falar sobre abstrações, sobre sensações, do que sobre o que foi L.C. Porém, precisa pensar em Leonardo como ser que existiu, como pessoa- realidade. Precisa pensar em L.C. no momento em que seus corpos existiram, juntos, como indivíduos corpóreos. A importância dessa realidade existe apenas em si. Agora o segredo é só dela. Agora não tem importância. Viu Leonardo pela primeira vez e, nessa primeira visão, ela
o criou. Amou essa Criação, essa parte de si mesma. L.C., por outro lado, foi pessoa real. Existiu. E essa existência dupla se convergiu em certo momento. Ela- existência e Ele-existência. É assim que duas pessoas se conhecem: como dois planetas que colidem.
Luizza Milczanowski escreve poesia e prosa, mais associada a gêneros híbridos ou experimentais. Além de O Diálogo participa das coletâneas do Prêmio Off Flip de Literatura 2021 nos gêneros Poe- sia, Contos e Crônica, da antologia Entre Janelas, vol. II (2020) da Oribê e da Cole- tânea Conpoema do concurso de poesias Professor Roberto Tonellotti. Já colabo- rou, ainda, com diferentes revistas literá- rias como a Revista Philos, Intransitiva, Subversa, Inversos, LiteraLivre, Valki- rias, Ventania e RelevO. Escreve ensaios, principalmente sobre Vladimir Nabokov, autor cuja obra divulga pela página “Na- bokovia”.
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QUASE
ARES) E
Germana Accioly
Acordei sentindo o corpo todo meio dormente, meio vibrando.
Um -sono absolutamente profundo, um despertar lento, relutante.
Aliás, a palavra é relutante. Lutei muitas vezes. Insisti em perder.
Relutei por anos em aceitar. Acolher. Refusei oportunidades, me escondi atrás de tantos fantasmas. Meus esconderijos quase perfeitos.
Eu, meu principal algoz, dando voz a todos os comentários. Vestia a fantasia alheia e dela me apossava.
Capaz de criar tantas realidades, des- ci dos meus palcos, apaguei as luzes e me fechei no camarim. As cortinas seguiram abertas, sinalização para saída de emer- gência, fuga tragicamente planejada.
Mas, por maior que seja o bunker, um dia há que se abrir a porta e buscar água, comida, ajuda. Por mais perfeito que seja o disfarce, em algum momento a maquia- gem borra, o chapéu voa, a máscara cai.
Foram muitos os passos. Primeiro, em círculos infundados, encontrando descul- pas vazias baseadas num sentimento em
nada parecido, mas denominado de amor. Depois, muito depois, novos caminhos ti- tubeantes, cambaleantes, trôpegos.
Reabilitação para a vida.
Reaprendi a respirar, a nadar nas mi- nhas águas turvas e bravas, a amar o que é meu. Uma passagem nem sempre linear.
Eis que hoje eu acordo sentindo dife- rente. Acolhendo meus prazeres, reivin- dicando minha memória, reconstruindo minha história. Eu não sou o desenho do passado. Eu não sou o decalque das déca- das nostálgicas.
Bordo com palavras meus novos so- nhos. Faço e refaço pontos que eu mesma criei. Misturo as cores que me aprazem. Acalmo minha pressa de viver, alimento a fome de ser.
Não me incomoda reciclar, reutilizar ou repaginar sentimentos. Não tenho a avidez capitalista do novo, do exclusivo, do todo meu. Vou trazendo na bagagem o que ainda me apraz. Carregando o peso que posso levar sozinha.
Aliás, esta foi a lição mais difícil de aprender. Fazer a mala para aquela via-
gem e só levar o necessário. Passei a fazer o exercício do minimalista. Experimentar o pequeno como se fosse o fundamental.
O escasso, sem restrição.
Divagando e brincando com as pala- vras, me dou conta que ainda estou deita- da, respeitando o ritmo do meu despertar.
Quase tarde, mas ainda manhã.
Há tempo para celebrar o domingo
Germana Accioly, 49 anos, é recifense, mãe, ativista dos direitos humanos. For- mada em Comunicação Social pela UFPE, trabalhou como repórter de TV, editora e apresentadora. Tem especialização em Cul- tura e Comunicação (AGECIF, Paris) e em Política e Representação Parlamentar (Ce- for, Brasília). No campo da música, estudou piano erudito por 15 anos. Também atuou como atriz de teatro e TV. Em temporada na França, fez estágio na Comedie Française. Foi assessora de comunicação da Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernam- bucano de Música e de diversos projetos culturais. Em 2021, publicou seu primei- ro livro Não é sobre você (Selo Mirada).
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PACÓJICIPADAM DESTA EDIÇÃO
Fotografias
Águeda Amaral, fotógrafa, diretora e fundadora da Cabelo Duro Produções. Dirigiu: Na Cena do Samba - Noel Rosa, 2010, finalista na premiação da Revista BRAVO, Apuéê, 2011 (Curta) na AIC - Academia Internacional de Cinema, Maria Maria, 2011 (Curta Metragem) — premiado em edital da TV Câmara e Música na Alma, 2013 -2014, sobre a música de rua Cubana, com filmagens em Cuba e São Paulo. É co-produtora do longa, Hestórias da Psicanálise — Leitores de Freud, Dir. Francisco Capoulade, 2015, No Gargalo do Samba, 2017 - lançado na Rede EBC / TV Brasil e em mais 16 países da América Latina Atualmente é co-produtora do documentário
A Descoberta do Mundo, um filme sobre Clarice Lispector, dirigido por Taciana Oliveira. É produtora executiva da FILAFRO - Filarmônica Afro Brasileira em Espetáculos Nacionais e Internacionais. Durante a pandemia, dirigiu a série Horizonte Cinza de um Coração Azul. Site: www.cabeloduroproducoes.com. Fotografias p.14, p. 46 e 47.
Editoração
Taciana oliveira é cineasta, formada em comunicação social: rádio e TV, defensora das causas sociais por vocação, coordena as revistas Lau- delinas e Mirada e é editora de Selo do mesmo nome. Natural do Recife, é leão com ascendente em leão e lua em virgem. Há anos protela o lança- mento de seu primeiro livro, Coisa Perdida, mas um dia ele sai.
Design Editorial
, * | - Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa sem E; senso de direção. Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado. Vos Participa da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora. “Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura & LIBRAS (instagram (mliteraturalibras), escreve no Medium sob o '* pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada, 2020), livro de memórias. IG: ()ohmybecka
MIRADA